O El Niño na agricultura pode provocar perdas de produtividade em diferentes regiões brasileiras em 2027. A avaliação é do Banco Central, que identificou riscos mais disseminados para milho, algodão e arroz. No caso da soja, os efeitos esperados variam entre os estados.
A análise consta no Relatório de Política Monetária de setembro, divulgado pelo BC em 24 de setembro. O estudo também relaciona o fenômeno climático ao aumento do risco para os preços dos alimentos.
El Niño na agricultura afeta culturas de formas diferentes
O Banco Central comparou episódios de El Niño e La Niña com o comportamento histórico da produtividade agrícola. A avaliação considerou diferentes culturas e unidades da federação entre 1990 e 2026.
Os resultados indicam que o El Niño está associado a rendimentos abaixo da tendência para milho, algodão e arroz na maioria dos estados analisados. A intensidade do efeito, porém, muda conforme a cultura, a região e a fase do ciclo agrícola.
O BC ressalta que o estudo mede relações observadas no passado. Portanto, os resultados representam riscos para 2027, e não uma previsão fechada sobre o tamanho da próxima safra.
Milho segunda safra concentra parte do risco
O milho aparece entre as culturas mais expostas no levantamento. O efeito negativo ganha importância na segunda safra, responsável pela maior parcela da produção nacional do cereal.
O milho segunda safra é plantado depois da colheita da soja em estados do Centro-Oeste e de outras regiões. Se o calendário da oleaginosa atrasar, a semeadura do cereal também pode ocorrer mais tarde.
Esse deslocamento aumenta a exposição da lavoura ao período de redução das chuvas. Falta de água durante o florescimento e o enchimento dos grãos pode limitar o rendimento.
Com base nas projeções atuais para o fenômeno, o Banco Central estima um risco negativo de magnitude elevada para a produtividade do milho em 2027. O resultado final dependerá das condições registradas em cada região.
Arroz exige atenção por causa do peso do Rio Grande do Sul
O efeito estimado para o arroz também é negativo. A avaliação ganha relevância porque o Rio Grande do Sul concentra mais da metade da área plantada com a cultura no Brasil.
No estado, o coeficiente associado ao El Niño foi negativo, relevante e estatisticamente significativo. Em anos com excesso de chuva, o plantio, o desenvolvimento e a colheita do arroz irrigado podem enfrentar dificuldades.
Chuvas frequentes podem reduzir os dias disponíveis para operações no campo. Também podem afetar a implantação das lavouras e a qualidade do produto, dependendo do momento em que ocorrem.
O BC considera que as projeções climáticas atuais são compatíveis com um efeito adverso sobre a produtividade gaúcha em 2027. Ainda assim, o relatório não antecipa um percentual de perda para a safra.
Algodão apresenta risco em vários estados
O algodão também registrou associação entre El Niño e produtividade abaixo da tendência em grande parte das unidades da federação avaliadas.
A cultura depende de uma distribuição adequada de chuva ao longo do ciclo. Irregularidade hídrica, temperaturas elevadas ou precipitações na colheita podem afetar rendimento e qualidade da fibra.
Assim como ocorre com o milho, parte do algodão brasileiro é cultivada após a soja. Atrasos na primeira cultura podem reduzir a janela disponível para a segunda safra e elevar a exposição climática.
Efeito sobre a soja varia entre as regiões
A soja apresenta um resultado mais heterogêneo. O estudo identifica associação com ganhos de produtividade em estados do Sul, onde o El Niño costuma aumentar a disponibilidade de chuva.
Em áreas do Matopiba, o sinal é diferente. Piauí e Maranhão aparecem entre os estados com efeitos negativos associados ao fenômeno.
Como as principais regiões produtoras podem seguir direções opostas, parte dos efeitos tende a se compensar no resultado nacional. Isso não elimina perdas locais, que podem ser relevantes para os produtores atingidos.
Os impactos dependem de fatores como:
- Volume e distribuição das chuvas durante o ciclo;
- Temperaturas registradas nas fases reprodutivas;
- Época de semeadura e ciclo das cultivares;
- Condições do solo e manejo adotado em cada lavoura.
Risco climático entra nas projeções para alimentos
O possível impacto sobre a produção também aparece no cenário de inflação. Segundo o relatório, a expectativa para o IPCA de 2027 aumentou de 4,10% para 4,30%.
A revisão ficou concentrada principalmente na alimentação no domicílio. A projeção desse grupo avançou de 5,01% para 5,67% no período analisado pelo Banco Central.
A alta pode refletir a incorporação gradual dos riscos associados ao El Niño. Menor oferta de grãos afeta diretamente alguns alimentos e pode elevar custos em cadeias que utilizam milho e soja na alimentação animal.
Isso não significa que os preços subirão automaticamente nessa proporção. Produção efetiva, estoques, importações, câmbio e comportamento da demanda também influenciam a inflação de alimentos.
Analistas estimam efeito sobre a inflação de 2026 e 2027
O Banco Central consultou analistas sobre os possíveis reflexos do fenômeno. Na mediana das respostas, o impacto estimado foi de 0,2 ponto percentual sobre a inflação de 2026.
Para 2027, a estimativa mediana chegou a 0,3 ponto percentual. Esses valores representam a percepção dos participantes consultados, e não uma projeção direta do modelo oficial do BC.
A diferença é importante porque as expectativas podem mudar à medida que surgem novos dados sobre o clima, a safra e os preços no atacado e no varejo.
Estudo não substitui a previsão de safra
O próprio Banco Central recomenda cautela na interpretação dos resultados. A quantidade de episódios de El Niño disponível no período analisado é limitada.
Além disso, produtividade agrícola depende de vários fatores. Tecnologia, genética, manejo, calendário de plantio, incidência de pragas e doenças e condições econômicas também alteram o desempenho das lavouras.
Por esse motivo, uma associação histórica não determina o resultado de uma temporada específica. O estudo ajuda a identificar culturas e regiões mais sensíveis, mas não informa quanto será colhido em 2027.
Monitoramento regional será decisivo
A evolução da safra deverá ser acompanhada por cultura e região. Para o milho, a atenção estará concentrada na janela da segunda safra. No arroz, o comportamento das chuvas no Rio Grande do Sul terá peso nacional.
Na soja, o contraste entre Sul e Matopiba pode produzir resultados distintos ao longo do país. Já o algodão dependerá da regularidade hídrica e do calendário após a colheita da soja.
As próximas atualizações climáticas e os levantamentos de campo permitirão avaliar se os riscos identificados pelo BC estão se confirmando. Até lá, o El Niño deve ser tratado como um fator de atenção para produtividade e preços, não como uma quebra de safra já definida.
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